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Testamos o Índice Sossego contra 62 medições em São Paulo

Erro médio, onde o modelo acerta e onde erra feio: o que três campanhas de medição na República, na Paulista, em Pinheiros e nos Jardins mostraram, e o que vamos mudar.

Por Rômulo Amaral, Lead AI Engineer · · 4 min de leitura

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Um modelo que estima ruído a partir do mapa precisa ser confrontado com medições reais, senão é só um desenho bonito. Este é o relato da primeira validação do Índice Sossego, com os números completos, inclusive os ruins.

Por que São Paulo

Os mapas de ruído oficiais brasileiros publicam seus pontos de calibração apenas como marcas em figuras, sem os valores medidos. Procuramos campanhas que tivessem publicado o nível ponto a ponto e encontramos três, todas em São Paulo:

  • 21 pontos na República e no Ipiranga, medidos em junho e julho de 2019, entre 14h e 17h, com três amostras de 1 minuto em cada ponto.
  • 3 pontos na Avenida Paulista e na Consolação, em abril de 2019, com 5 minutos de medição e sonômetro de classe 1.
  • 40 cruzamentos em Pinheiros, no Itaim e nos Jardins, em 2010 e 2011, no pico da manhã, com três amostras de 10 minutos.

Cada ponto foi localizado no OpenStreetMap pelo cruzamento ou pelo número da porta, e o modelo foi rodado nesse ponto exato. Dos 64 pontos, 62 entraram na comparação; 2 ficaram de fora por não termos certeza da localização.

O resultado geral

Indicador Valor
Erro médio (estimado menos medido) +2,1 dB
Erro médio absoluto 5,1 dB
Pontos a menos de 5 dB do medido 56%
Correlação entre estimado e medido 0,52

Separando por tipo de campanha, a história fica mais clara. Nas fachadas do centro, os 19 pontos da República e do Ipiranga que entraram, o erro médio absoluto cai para 3,1 dB e 89% dos pontos ficam a menos de 5 dB do medido. Nos 40 cruzamentos das grandes avenidas, medidos no pico da manhã, o erro sobe para 6,1 dB.

Por classe de via

Classe da via mais próxima Pontos Erro médio Erro médio absoluto
Via coletora 22 +1,3 dB 3,5 dB
Via local principal 10 −0,1 dB 3,0 dB
Via arterial 17 +4,0 dB 5,4 dB
Via expressa 10 +4,7 dB 7,8 dB
Rodovia 3 +2,4 dB 8,7 dB
Rua residencial 2 −12,6 dB 12,6 dB

Coletoras e vias locais saem calibradas. Arteriais e vias expressas ficam 4 a 5 dB acima do medido no próprio cruzamento. E as poucas ruas classificadas como residenciais no OpenStreetMap que carregam trânsito de passagem ficam muito abaixo.

Os piores pontos

  • Rua Fradique Coutinho com Rua Wisard, em Pinheiros: medido 72 dB(A), estimado 58. A rua está no mapa como residencial, mas funciona como ligação com linha de ônibus. É o maior erro da série, 14,6 dB para baixo.
  • Alameda Campinas com Rua José Maria Lisboa, nos Jardins: medido 71, estimado 60. Mesmo problema: classificada como residencial, carrega trânsito.
  • Rua Orobó com Rua Fonseca Rodrigues e Fonseca Rodrigues com Miralta, junto à Marginal Pinheiros: medidos 69 e 70, estimados 80 e 81. A via expressa domina o cálculo no eixo, mas a medição foi feita na calçada, abaixo do nível da pista.
  • Avenida Rebouças com Faria Lima: medido 72, estimado 83. Mesma superestimativa das grandes avenidas.

Em resumo, o modelo abre demais a escala. O medido na calçada ficou quase sempre entre 67 e 75 dB(A); a estimativa foi de 58 a 85.

O que as medições não dizem

As campanhas têm limites, e eles jogam contra o modelo em uma direção e a favor na outra. As amostras duraram de 1 a 10 minutos, parte delas no pico, e foram feitas no meio-fio de cruzamentos, onde o som é mais alto. O modelo representa a média do período diurno, das 7h às 22h, no eixo da via. Isso exagera a subestimativa nas ruas pequenas, que no pico ficam mais altas do que na média, e esconde parte da superestimativa nas avenidas. Também não houve nenhum ponto à noite, de modo que o índice noturno segue sem validação direta.

O que vai mudar

A validação aponta três ajustes, nesta ordem:

  1. Subir o nível das ruas residenciais e locais, ou detectar as que carregam trânsito de passagem a partir de atributos como mão única, número de faixas e linha de ônibus.
  2. Baixar 2 a 3 dB as arteriais e vias expressas.
  3. Mover o ponto de cálculo do eixo da via para a calçada, a uns 8 metros, que é onde as pessoas estão.

Até que isso seja feito e validado de novo, trate a estimativa junto a grandes avenidas como um teto e a de ruas pequenas em bairros densos como um piso.

Como ler a nota sabendo disso

O índice serve para comparar lugares: a diferença entre um bairro com 50 e outro com 80 é real e grande. Diferenças de 5 pontos estão dentro do erro. E para uma decisão cara, como comprar um imóvel, nada substitui ir ao lugar nos horários certos, com um aplicativo de medição na mão. Explicamos como medir ruído com o celular e, se o seu número ficar muito longe do nosso, escreva para contato@mapasossego.com.br com o ponto, a hora e o valor. É assim que o modelo melhora.

Veja o ruído do seu endereço

Digite o endereço no mapa e compare a nota com a dos bairros vizinhos, com andar e face do apartamento.

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